17/02/25

Instituições e organizações parcerias realizaram um seminário de integração das iniciativas do projeto com a participação de representantes de líderes comunitários de unidades de conservação pertencentes ao projeto  

Para fortalecer o desenvolvimento socioeconômico sustentável de povos tradicionais e comunidades amazônicas que atuam em cadeias produtivas da sociobiodiversidade, como castanha-do-brasil, açaí, pirarucu, babaçu, óleos vegetais e madeira de manejo sustentável, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o Fundo Vale criaram o programa Sustenta.Bio – Aliança pelo fortalecimento das economias da sociobiodiversidade em áreas protegidas – uma ação pioneira voltada à promoção da bioeconomia em Reservas Extrativistas e outras categorias de áreas protegidas que permitam o uso sustentável por famílias e associações que residem nos territórios.  

O programa foi oficialmente lançado durante o encontro “Confluência de Saberes – Primeiro Seminário de Integração de Iniciativas do Sustenta.Bio”, realizado em fevereiro, em Manaus. Durante três dias, técnicos, lideranças comunitárias e representantes das instituições parceiras participaram de um encontro estruturado em três pilares principais: a apresentação dos resultados do projeto até o momento, a discussão sobre as cadeias produtivas da sociobiodiversidade e a confluência de saberes para a promoção da sociobioeconomia.  

 Até 2027, o Sustenta.Bio deverá investir cerca de R$ 24 milhões em 14 áreas protegidas, que juntas somam mais de 10 milhões de hectares de floresta Amazônica nos estados do Amazonas e do Pará.  Os objetivos do Sustenta.Bio incluem a promoção de mudanças nos paradigmas econômicos sobre empreendimentos comunitários, a melhoria da qualidade de vida das populações que vivem nas Unidades de Conservação (UCs) e em seu entorno, o fortalecimento da governança de organizações, cooperativas e associações, melhorias em infraestrutura, qualificação técnica e abertura de mercados para a comercialização da produção.   

“O fortalecimento das cadeias produtivas da sociobiodiversidade é uma agenda que o Fundo Vale acompanha há 15 anos. Reconhecemos a importância dessas atividades para manter a floresta viva e garantir a dignidade dos povos que nela habitam. Essa é uma necessidade crucial, especialmente quando consideramos o potencial que essas cadeias têm hoje para o mercado brasileiro e, de forma mais ambiciosa, para alcançar o mercado internacional”, disse Patrícia Daros, diretora do Fundo Vale.   

“O Fundo Vale acredita muito no potencial da sociobioeconomia como uma estratégia que promove a proteção das florestas, mas também a melhoria da qualidade de vida dessas pessoas que vivem no território”, completou Márcia Soares, gerente de Parcerias e Amazônia do Fundo Vale.   

Segundo o ICMBio, a parceria pioneira reforça o protagonismo de comunidades que vivem em áreas protegidas na promoção da sociobioeconomia: “Com o Sustenta.Bio, pretendemos integrar conservação da natureza com geração de renda e bem-estar para as comunidades que vivem na Amazônia. Essas populações, ao manterem a floresta em pé, são guardiãs de um dos maiores patrimônios biológicos e culturais do planeta”, afirma Tatiana Rehder, Coordenadora-Geral de Articulação de Políticas Públicas e Economias da Sociobiodiversidade – CGPT/ICMBio.    

Conexão com políticas públicas e acordos globais   

O Sustenta.Bio está alinhado com importantes diretrizes de políticas públicas nacionais e com os compromissos assumidos pelo Brasil em acordos internacionais voltados para a conservação da biodiversidade e a mitigação de mudanças climáticas. Entre as políticas relacionadas, destacam-se o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), a Política de Garantia de Preço Mínimo dos Produtos da Sociobiodiversidade (PGPM-Bio), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Além disso, a iniciativa contribui diretamente para o cumprimento de 8 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.   

Sustenta.Bio em ação      

O Sustenta.Bio iniciou sua estruturação em 2023 como fruto de uma parceria entre o ICMBio e Fundo Vale e conta com seis organizações correalizadoras que atuam na região amazônica há muitos anos, e com reconhecidos resultados: Idesam (Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia), AMORERI (Associação dos Moradores da Reserva Extrativista Rio Iriri), Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, OPAN (Operação Amazônia Nativa), ASPROC (Associação de Produtores Rurais de Carauari) e IFT (Instituto Floresta Tropical).   

Ao longo de 2024, essas organizações promoveram dezenas de ações estratégicas para fortalecer o associativismo e a governança das cadeias produtivas em comunidades tradicionais. Cerca de 850 pessoas já foram beneficiadas direta e indiretamente pelo Sustenta.Bio por meio de ações como capacitações técnicas, investimentos em infraestrutura e aquisição de equipamentos, construção de um entreposto pesqueiro, licenciamento de movelarias comunitárias, entre outras. Também houve a realização de assembleias voltadas para planejamento estratégico, fortalecimento institucional de associações e busca por novos arranjos de negócios.     

Durante o seminário, Mônica Fonseca, analista de sustentabilidade do Fundo Vale que acompanha as atividades do Sustenta.Bio , destacou a importância do momento vivido em Manaus, que era muito aguardado por todos que atuam no projeto. “Esse é o resultado de um primeiro ano muito intenso de trabalho. Estamos vendo como as ações que apoiamos têm sido efetivas na conservação da floresta. O ICMBio depende dessas comunidades locais para a proteção das áreas, e esse é o mecanismo mais eficiente que temos: são essas populações que vivem lá dentro responsáveis pela manutenção dessas áreas da Amazônia, tão ricas em saberes tradicionais e em biodiversidade”, declarou.   

O que dizem representantes de comunidades extrativistas participantes do Sustenta.Bio  

“Esse projeto traz uma melhoria significativa na nossa qualidade de vida, especialmente com a construção de uma marcenaria na comunidade. Isso é fundamental para alcançarmos nossos principais objetivos: manter os jovens na comunidade, fortalecer a produção dentro da nossa unidade de conservação e melhorar o custo-benefício dos nossos produtos. Quero expressar minha gratidão ao ICMBio, ao Fundo Vale, que tem sido um grande parceiro, e ao Idesam, que nos acompanha em todas as ações dentro da unidade de conservação. Nosso principal objetivo é a evolução e a proteção do nosso território”. (Laureni Barros Flores, presidente da Associação APADRIT – Resex Ituxi). 

“Essa iniciativa traz um impacto muito positivo na vida das pessoas e das famílias ribeirinhas. Quero agradecer de coração ao Fundo Vale por essa parceria e ao IFT (Instituto Floresta Tropical), que oferece as capacitações necessárias para que possamos desenvolver nossas cadeias produtivas com qualidade e ter uma perspectiva de vida melhor no futuro”, (Emanuel, Resex Verde Para Sempre).   

“Dentre as cadeias produtivas, temos uma prioridade: o manejo do pirarucu. Em nome das nossas comunidades, quero agradecer o apoio do ICMBio e do Fundo Vale pela realização do nosso sonho: melhorar a qualidade de vida das famílias. Conseguimos construir um entreposto de pescado em Carauari, com o objetivo de agregar valor e melhor remunerar nossos manejadores. Recentemente, o entreposto sofreu um sinistro, mas estamos reconstruindo-o graças a essas parcerias, que têm sido fundamentais para concretizar esse projeto. Temos consciência de que a proteção da nossa floresta e do meio ambiente só é possível com as famílias vivendo e sobrevivendo da floresta. Essa parceria possibilita que a gente continue nesse ciclo harmonioso, preservando e usufruindo dos recursos naturais de forma sustentável”. (Manuel Cosme Siqueira, diretor financeiro da Associação dos Produtores Rurais de Carauari – ASPROC).  

“Contamos com o apoio do IFT, que tem sido um parceiro essencial, e do Fundo Vale, que atualmente nos apoia nessa jornada. Para nós, é muito gratificante saber que temos parcerias que nos enxergam, reconhecem nossa identidade como comunidade tradicional e valorizam nossos produtos e práticas sustentáveis. Precisamos fortalecer essas cadeias e valorizar nossas riquezas, que vão além do aspecto financeiro: são parte da nossa história, da nossa identidade e da nossa afirmação como povos e comunidades tradicionais.  Hoje, estamos nos fortalecendo, e olho para o futuro com a certeza de que ainda temos muito a aprender e a construir. Quando buscamos algo com seriedade e dedicação, percebemos que há parceiros que podem nos fortalecer e nos olhar com respeito”. (Maria do Livramento, presidente da cooperativa COAMA – Resex Mapuá).  

“O Fundo Vale tem sido essencial, principalmente na construção de infraestrutura e na assistência técnica continuada, em parceria com o IFT e o ICMBio, que capacitam nosso grupo de manejadores. Esses profissionais desenvolvem um trabalho fundamental nas cadeias produtivas da madeira, do açaí e de outros produtos da floresta. Essa colaboração com o Fundo Vale tem nos ajudado a ganhar visibilidade, agregar valor à nossa produção, buscar novos mercados e fortalecer nossa capacitação. Tudo isso veio em um momento importante, pois nosso território, o Marajó, é um dos mais esquecidos do Brasil, com alguns dos piores índices de desenvolvimento humano. Apesar de sermos ricos em recursos naturais, enfrentamos grandes desigualdades. Essa parceria nos tira da invisibilidade, agrega valor aos nossos produtos e nos coloca em um novo patamar. Isso é fundamental para nós, pois a floresta é nossa, e precisamos protegê-la para nós, nossos filhos e as futuras gerações”. (Samuel, presidente da Cooperativa COMAP – Resex Arióca Pruanã).